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Economia Circular na Prática: Seis estudos de caso brasileiros

Este artigo acompanha a publicação de seis de estudos de caso que buscam ilustrar a aplicação da economia circular em diversos setores no Brasil.


Impulsionado pelo boom de commodities que marcou o início do século 21, o Brasil vivenciou uma prosperidade ilusória ao longo de quase uma década. No período entre os anos 2000-2012, os país despontou como uma das economias de maior crescimento, gerando lucros expressivos a partir de suas abundantes reservas de matérias primas (soja, cana de açúcar, minério de ferro, petróleo, madeira) e baixos custos de produção e mão de obra.

Esta ascensão econômica exponencial que o País experimentou no período se deveu em grande parte à emergência da China e da Índia como potências econômicas, que criou uma demanda voraz por recursos para alimentar uma classe média em expansão e o desenvolvimento de infraestruturas urbanas e industriais. Este boom provocou um crescimento no PIB brasileiro, ao qual se atribuiu o fato de milhões de pessoas terem saído provisoriamente da linha de pobreza.

Pouco resiliente, a prosperidade gerada durante este período não durou. Altamente dependente das receitas de curto-prazo de indústrias extrativas e carente em investimentos em desenvolvimento de infraestruturas e competências industriais modernas, o Brasil reforçava sua dependência dos mercados externos. Este cenário deixou o país especialmente vulnerável às flutuações de preços de commodities, decorrentes do desempenho das economias de outros países, e reverteu a evolução da economia brasileira para uma de base manufatureira, que gera mais valor a partir das matérias primas e cria emprego mais qualificado. Ao surfar a onda deste boom no início dos anos 2000, o Brasil voltou a ser uma economia de commodities, com uma ressaca linear do século 20 e um custoso gap de inovação

Gráfico: em 2009 a economia brasileira foi ‘reprimarizada’ – exportações de commodities excederam a manufatura pela primeira vez em 30 décadas. Fonte: Adaptado do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços

O Brasil possui uma enorme abundância de recursos naturais e um conjunto único de atributos físicos e humanos. O País agora começa a reconhecer a necessidade de reposicionar sua economia, e este artigo demonstra, a partir de estudos de caso de empresas pioneiras, que a incorporação do pensamento da economia circular neste processo de mudança poderia inspirar um melhor aproveitamento de seus recursos naturais e humanos. Ao fazê-lo, o Brasil poderia dissociar seu crescimento econômico das imprevisíveis flutuações da demanda global por commodities, estabelecendo assim a base para a construção de uma prosperidade mais resiliente e compartilhada.

O conceito da economia circular, ainda pouco difundido cerca de dez anos atrás, vem ganhando crescente visibilidade nos últimos anos. Até hoje, as pesquisas e atividades ligadas à promoção deste novo modelo econômico vêm sido desenvolvidas no contexto de países europeus de alta renda e altamente dependentes da importação de commodities. O contexto socioeconômico brasileiro é muito diferente. A renda média é inferior, os sistemas de infraestrutura não são tão avançados e o país é um importante exportador de matérias primas. Esta última característica é especialmente relevante já que, em um contexto europeu, muitos dos fatores de estímulo à da economia circular estão associados a riscos de suprimento e de preços.

O potencial de adoção da economia circular no Brasil foi explorado pela Ellen MacArthur Foundation em um estudo publicado no início do ano. Este estudo exploratório identificou fatores e oportunidades de implementação da economia circular em grande escala no Brasil. A abundância de recursos naturais, a emergência de inovações disruptivas no ciclo biológico, a expressiva e dinâmica economia informal e o tamanho substancial do mercado – tanto em termos territoriais como populacionais – foram características-chave destacadas pela pesquisa. O estudo conclui que uma mudança em direção a modelos de negócio circulares poderia destravar grandes oportunidades de inovação e geração de valor ao redor do país.

Diversas empresas brasileiras já começaram a compreender e apreciar esta grande oportunidade e estão repensando seus processos de design, suas operações e suas ofertas de produtos e serviços. Ao promover mudanças em seu design e modelos de negócio, estas empresas percebem que podem, ao mesmo tempo, aumentar seu faturamento e obter vantagem competitiva no mercado.

Image: sommai / stock.adobe.com

A CBPAK está unindo ciência material e inovação em modelo de negócio para gerar valor a partir da mandioca. A empresa usa mandioca brava, a espécie não comestível da raiz, para produzir embalagens descartáveis que substituem os problemáticos plásticos. A proposta de valor para o cliente inclui o descarte das embalagens pós-uso, o que é possibilitado por parceiras mantidas com empresas locais de compostagem, que coletam as embalagens usadas e as convertem em adubo que pode ser usado para regenerar terras agrícolas.

No Brasil, o emprego informal representa uma parcela considerável da população economicamente ativa. Por motivos de necessidade econômica, uma grande parte do setor informal (ex. catadores) já aplica princípios circulares e assim contribui significativamente para o fluxo circular de materiais na economia. Apesar disto, muitos trabalhadores informais sofrem com a falta de assistência social e infraestrutura precária, o que resulta em riscos de saúde e vazamento de materiais para o sistema. Algumas empresas já aprenderam a operar neste cenário de maneira efetiva. A Rede Asta, por exemplo, criou uma plataforma virtual para apoiar uma rede de artesãs na recuperação de materiais a partir de resíduos urbanos e corporativos. As artesãs transformam este material em brindes personalizados que são vendidos de volta às empresas e outros clientes. A plataforma da Rede Asta ajuda a aumentar a renda da rede de artesãs, além de proporcionar maior conectividade e ampliar sua capacidade de compartilhamento de recursos.

A floresta amazônica se estende sobre metade do território brasileiro. A floresta possui uma biodiversidade incomparável, além de abrigar um quinto de toda a água doce do planeta, e por isto é fundamental para a regulação do clima global. O território amazônico também abriga comunidades indígenas donas de uma riqueza inestimável em conhecimentos tradicionais, sobretudo no que diz respeito à gestão efetiva de recursos naturais. A Natura colabora com essas comunidades para aplicar sua biointeligência, sendo assim capaz de gerar valor ao mesmo tempo em que promove a regeneração da floresta. Ao utilizar os ativos da biodiversidade – os valiosos ativos naturais oferecidos pelo bioma da floresta – como insumo, a empresa de cosméticos revelou importantes benefícios na colheita de frutos, em relação ao modelo linear tradicional de extração madeireira. Isto cria um incentivo econômico à preservação da floresta, comprovando que pode ser mais lucrativo conservar as árvores para colher seus frutos e sementes, e fortalecendo o combate ao desmatamento.

A ArcelorMittal compreendeu o potencial extraordinário de regeneração do Brasil, ao explorar oportunidades para além do seu negócio principal. O maior produtor mundial de aço está plantando florestas de eucalipto certificadas em terras degradadas para alimentar sua produção de carvão vegetal, substituto do carvão mineral poluente, e que vem possibilitando a produção de ‘carvão positivo em carbono’. A ArcelorMittal também tem sido bem-sucedida na geração de novas fontes de receita a partir da venda de coprodutos de seus altos fornos de fundição. Estes materiais podem ser usados como substitutos a materiais virgens em indústrias como a de construção.

O Brasil representa um mercado consumidor expressivo, com mais de metade de seus 207 milhões de habitantes pertencendo à classe média. Faz sentido, portanto, tentar capturar valor a partir do grande volume de bens de consumo que são vendidos e distribuídos, mesmos dos que estejam danificados. No entanto, seu território extenso e muitas vezes difícil de navegar, dificulta a implementação de esquemas de logística reversa no País.

No setor de eletroeletrônicos, a eStoks é um ótimo exemplo de como estes desafios podem se tornar oportunidades de negócio. Estima-se que 5% dos produtos no mercado sejam devolvidos pelos consumidores por conta de pequenos defeitos. O valor destes produtos, classificados como ‘resíduo pré-consumo’, representa um potencial de R$ 7.7 bilhões em receita não realizada. A maior parte das plantas manufatureiras do País se encontram nas regiões Sul e Sudeste, que também representam o principal mercado consumidor; este núcleo fica distante de outro importante centro de consumo no Nordeste. Ao compreender este cenário, a eStoks estabeleceu centros de reparos e logística reversa nesta região, para otimizar a logística e transformar resíduos pré-consumo em produtos vendáveis.

A AHLMA, marca de vestuário recém-lançada, está tentando promover uma mudança comportamental e de mentalidade em um dos setores mais lineares do mundo –  a indústria da moda. A abordagem circular da Ahlma engloba todo o ciclo de vida de suas roupas, desde a seleção de materiais até a preocupação com a experiência do cliente. Isto inclui a obtenção de 80% de suas matérias primas a partir das sobras de tecido da indústria, design open source, inventário lean, caixas de transporte reutilizáveis, instruções para extensão da vida útil do produto, lavagem atóxica e um laboratório de reparos para manutenção e remodelagem. Através de suas ações, a empresa carioca está desafiando toda a cadeia da moda a repensar sua forma de operar no mercado.

Esses seis casos são apenas uma amostra do que um grande número de empresas pioneiras vem fazendo no Brasil, ao adotar uma abordagem mais sistêmica e regenerativa em suas operações. A Fundação está sempre atenta a projetos, empresas e iniciativas que estejam fazendo o mesmo. Em meados de novembro, alguns dos principais praticantes da economia circular no país se reunirão na capital, Brasília, para compartilhar histórias de sucesso, colaborar e desafiar as estruturas lineares existentes, explorando sobretudo o papel das condições viabilizadoras, como políticas públicas, finanças e educação, no estabelecimento de incentivos a um crescimento mais efetivo e de longo-prazo.

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The Author

Stella Chavin

Stella Chavin

Masters student in business management with a focus on Latin American markets, I joined the Ellen MacArthur Foundation in April 2017 to provide insights on circular economy initiatives already happening in Brazil.

1 Comment

  1. November 8, 2017 at 2:13 pm — Reply

    Stella, são matérias como essas que nos incentivam a cada dia transformar. É você já conhece a economia circular de cartões magnéticos? Sabe aquele cartão do banco que todo mundo joga fora quando vence? A empresa RS de Paula está reinventando o descarte dos cartões… Mais de 2 milhões já foram deacartados e além disso transformador. A proposta da empresa não é só recolher cartão pos uso, mas transformar esses em produtos úteis… Até medalha, troféu e placas de sinalização.

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